terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Cordel e educação



A RAPOSA, O CANCÃO E AS CRIANÇAS QUE FAZEM CORDEL


Recebi ontem a lista de livros paradidáticos do meu filho e tive a alegria de encontrar entre as obras indicadas o cordel "A raposa e o cancão”, de Arievaldo Viana, editado pelo Instituto Meta - IMEPH. O livro, que foi aprovado pelo Ministério da Educação para integrar o Plano Nacional do Livro Didático – PNLA 2008 – fala da esperteza desses dois animais, deixando o leitor curioso para saber quem vai se dar melhor no final.

É muito bom ver o cordel ocupando seu merecido espaço na educação das crianças brasileiras. No caso de “A raposa e o cancão”, a obra ainda tem a vantagem de tratar de fábula cujos personagens são animais da nossa fauna (além da raposa e o cancão, participam uma rolinha e um pequeno pássaro conhecido como “lavadeira”), o que aproxima a narrativa da realidade de nossas crianças. Desde criança, eu achava estranho histórias com ursos e esquilos.

Ainda sobre o cordel na educação, o jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, do dia 17.02.2008, traz interessante matéria sobre oficina de cordel realizada na cidade de Pacatuba-CE, onde 22 crianças produziram um livro em formato de cordel. A matéria publicada no DN é praticamente toda em cordel. Vejamos o seu texto:


Versos de crianças
UM CORDEL PARA FÁBULAS E CONTOS
Em Pacatuba, 22 alunos produziram um livro em formato de cordel. Assim, o Regional conta essa história
Cultura renovada
Leitura entre a criançada
No município de Pacatuba
O cordel encontrou morada
A idéia, nas escolas públicas,
Ecoou entre a garotada.
Em fevereiro de 2007
O projeto veio funcionar
O mestre era Paulo de Tarso
Às crianças, foi ensinar
Das 120 que se inscreveram
22, um livro, iriam criar.
“Fábulas e Contos em Cordel”
Foi o nome da publicação
2.000 exemplares
Tirados para distribuição
Rimas dos próprios alunos
Do mestre, a orientação.
Aulas teóricas e práticas
Meninos do 5º ao 9º ano
Apostila e CD’s recebidos
O professor declamando
Kit com vários cordéis
E o jeito, eles iam pegando.
Mirtes Holanda do Vale
4 escolas nos quatro cantos
Tinha Nely de Lima e Melo
E Ana Albuquerque Campos
Joana Vasconcelos de Oliveira
Lá o cordel deixou encantos.
Patativa do Assaré
Uma fonte de inspiração
Leandro Gomes de Barros
E outros de grande expressão
Ajudaram a fazer as sextilhas
E observar a metrificação.
Seis estrofes em cada verso
Rimas no 2º, no 4º e no 6º
Paulo de Tarso dizia:
“Assim é mais fácil fazer o texto”
E as crianças cumpriam
Tudo dentro do contexto.
Entre os textos do livro
Há 20 adaptações
De obras já escritas
Após leituras e abstrações
Mais seis poemas autorais
Completam as composições.
Tem tema de gente grande
Criança sabe, sim senhor!
Exemplo de Adhalya Almeida
Que o racismo “condenô”
“Não discrimine o irmão”
Disse ela, com louvor.
O pequeno Fernando Dantas
Incentivou a preservar
“Vamos caçar papagaios”
Mas é pro campo levar
Cuidar do meio ambiente
A fauna na flora deixar.
Antigas histórias infantis
Agora viraram cordel
“A lebre e a tartaruga”
Em um pedaço de papel
O garoto Weverton Campos
Fez uma representação fiel.
Tem neo-cordelista
Que já quer ser escritora
Aos dez anos de idade,
Dayana Sousa é sonhadora
“É um objetivo”, diz ela
Das letras, admiradora.
Paulo de Tarso acredita
“Sairão alguns escritores,
basta um empurrãozinho”
Fala ele dos amadores
“Dos seus próprios textos,
podem virar criadores”.
Para o prefeito de Pacatuba
Que é Zezinho Cavalcante
O incentivo à leitura
É o ponto mais importante
Para a qualidade do ensino
Melhorar a cada instante.
Como em todo o Ceará
O prefeito reconhece
Dificuldade de leitura
Em Pacatuba acontece
“O ensino foi universalizado”
Essa conquista, esclarece.
Já Francisco Monteiro,
Secretário de Educação,
Diz que nos próximos anos
Vai haver universalização
E o projeto chegar
Às 33 escolas da região.
Inclusive em 2008
Já haverá novidade
Além dos quatro colégios
Entra mais uma unidade
Na Ângela Costa Campos
O cordel será realidade.
A partir de amanhã
Começam as inscrições
Cerca de 160 alunos
Devem fazer as lições
Do 5º ao 9º ano
O cordel despertará paixões.
Quem fez o curso em 2007
Este ano, poderá continuar
É mais uma chance pra eles
De o próprio cordel melhorar
E os novos colegas de turma
A ler e escrever, incentivar.
ÍCARO JOATHAN
Especial para o Regional

PAZ E UNIÃO
Diga não ao racismo
As origens do racismo
Tem fatores sociais,
Políticos e econômicos
Entre todos desiguais
Que não respeitam os outros
E pensam que são rivais

Por conta disso tivemos
Muito sangue derramado
Um Japão após a guerra
Quase todo destroçado
E hoje vemos um Bush
Atirando em todo lado.

Acredite com amigo
Faça-me esse favor
Divulgue por onde andar
Ninguém é superior
Precisamos é pregar
Nessa terra muito amor.

Não discrimine o irmão
Só porque é diferente
Racismo não leva a nada
Seja também consciente
Pregue a paz e a união
Viva assim bem mais contente.

Todo racismo é crime
Denuncia, faça valer
Todas as leis existentes
Que procuram combater
“Corte o mal pela raiz”
e não deixe isso crescer.

Muitos problema nós temos
Nesse torrão brasileiro
Mostre para seus amigos
Servindo de conselheiro
Que nada ganhará
Sendo ladrão ou gangueiro.

No projeto de cordel
Eu aprendi escrever
E aqui em Pacatuba
Eu irei, sim, combater
Mostrando para todo mundo
A que eu pude aprender.

Nosso Deus superior
Nos dotou com a verdade
Portanto, vamos pregar
Com toda boa vontade
Muita paz e união
Entre todos a amizade.

ADHALYA ALMEIDA
Especial para o Regional

DILETO CIDADÃO
Aventuras do Barão de Munchausen

Agora vou lhes falar
De um cara bem doidão
Munchausen é conhecido
Como um grande barão
Um sujeito muito bom
Que ajuda a população.

Quando os fiapos da barba
Começaram a crescer
No início da juventude
O mundo foi conhecer
Pois ele precisava na vida
Procurar o que fazer.

Encontrou no seu caminho
Uma mulher educada
Que disse: “A minha sede
Precisa ser saciada”
Eu cheguei pertinho dela
E disse: “Obrigado fada”.

Nossa viagem foi boa
Só tive um incidente
Uma forte ventania
Saiu levando a gente
Esbarramos numa árvore
Que nos deixou descontente.

Depois de muito ajudar
À toda população
Fio caçar com uns amigos
Ma um imenso leão
Apareceu na sua frente
Estava sem munição.

O leão tava com fome
Tinha sim que dá no pé
Mas só que tinha atrás
Um valente jacaré
O Barão feito um carro
Saiu sim, de marcha ré.

O Barão saiu correndo
Atrás da população
Tinha na mão um revólver
Mas faltava munição
Isso é mais que verdade
Não é nenhuma invenção.

Nisso podem acreditar
Foi um caso de verdade
O Barão além de bom
Usava sinceridade
Na Rússia fez para o povo
Uma imensa bondade.

Teve muitas coisas mais
Desse importante Barão
Homem que na sua época
Fez grande revolução
Mas era sim, com certeza:
Um dileto cidadão.

EDVAN AQUINO
Especial para o Regional

O QUE ELES PENSAM
Escola comemora o trabalho
“Escolhi escrever o cordel ´Ali Babá e os 40 ladrões´ porque o livro trouxe uma história que eu considerei como a mais legal entre os encontrados na biblioteca. Deu muito trabalho fazer todas as estrofes, mas o professor Paulo de Tarso me ajudou, ensinando direitinho. Ele foi aperfeiçoando o meu poema. Com certeza, vou continuar fazendo cordel, quero escrever mais”.
Diogo Sousa Pereira - Estudante
“A história que escolhi para fazer na forma de cordel foi sobre ´As aventuras do Barão de Munchausen´. Eu e meus colegas de turma visitamos a biblioteca várias vezes, onde havia vários livros, e gostei mais desse. Fiquei muito satisfeito em ver o meu nome publicado no livro. Meus pais também me disseram que era um bom desempenho e ficaram orgulhosos de mim”.
Edvan Aquino - Estudante
“Considero uma vitória muito grande que esses 22 estudantes tenham concluído o curso de Literatura de Cordel, visto que nem todos os que começaram gostavam de ler. No prefácio de ´Fábulas e Contos em Cordel´, produzido pelos alunos e lançado em janeiro deste ano, destaco que a semente foi plantada e, se as árvores forem regadas, darão bons frutos. Este é o nosso objetivo”.
Paulo de Tarso - Professor
“Li o livro ´A formiga e a cigarra´ e gostei muito, por isso, fiz meu versos de cordel sobre ele. Achei muito divertido o trabalho e mais ou menos fácil escrever os versos. Antes de fazer o curso, eu já gostava de ler. Minha tia tem um monte de frases de poemas, e eu sempre lia. Pretendo continuar lendo e escrevendo novas histórias. Meu objetivo é um dia ser uma escritora”. Dayana Maria Vieira – Estudante

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Cordel e música popular (Zé Vicente da Paraíba)

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VIOLA E AMIGOS

Meu interesse pela poesia popular tem me trazido muitas coisas boas. Dentre elas, muito me emociona quando alguém me presenteia com um folheto de cordel ou um CD de violeiros, encontrado em uma feira ou um recital. Menos que o valor econômico do presente, anima mais ouvir a frase “Vi esse folheto e lembrei de você...”.
Semana passada uma tia mandou deixar em minha casa O CD “Viola e Amigos” de Zé Vicente da Paraíba. Tenho me deleitado com cada faixa, as quais trazem poesias em vários estilos, além de depoimentos do autor que traduzem bem a realidade e a cultura do poeta popular.
Em um desses depoimentos, emociona a forma como o poeta fala da sua emoção ao ganhar a primeira viola. É por isso que trago o depoimento para Mundo Cordel. Basta clicar na imagem da capa do CD, acima, para ouvir.
Mas saibamos um pouco mais sobre o poeta, lendo o que escreveu o jornalista José Teles no encarte:

Zé Vicente da Paraíba (nascido em Pocinhos, agosto de 1922) é uma daquelas figuras lendárias da cultura popular brasileira. Cantador de viola desde os anos 30, contemporâneo de outras lendas como os irmãos Batista (Lourival, Dimas e Otacílio, e Zé Limeira, para citar uns poucos nomes). Com 83 anos, morando em Altinho, longe das pelejas, muita gente imaginava que houvesse morrido. Pois não só não morreu, como continua com a memória mais afiada do que muitos cantadores jovens.
Nos anos 70, Zé Vicente da Paraíba alcançou notoriedade por ter versos seus cantados por Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Marília Pêra. O seu Quanto é Grande o Autor da Natureza passou pela música de um bando de figurões da MPB, mas direitos autorais que é bom, cala-te boca! Zé Vicente da Paraíba ganhou muito pouco. Também pouca foi badalação entre essas estrelas. Em pouco tempo ele voltava à rotina, e ao desafio de viola.
Assim como vários outros grandes artistas da cultura popular, Zé Vicente estava fadado a viver o resto da vida no ostracismo, já que não sai mais mundo afora com viola pronta para embalar seus versos afiados. Foi aí que Herbert Lucena encarou este desafio de registrar em disco, a poesia e as histórias do veterano cantador. Aliás, é bom ressaltar, foi Zé Vicente o primeiro violeiro a gravar um álbum de cantoria, isto há 50 anos, na extinta gravadora pernambucana Rozenblit.
Zé Vicente da Paraíba, Viola e Amigos faz justiça ao cantador paraibano, em particular, e à cantoria de viola em geral. Lucena não se limitou a simplesmente registrar a voz e viola do repentista (como a grande maioria dos discos do gênero, inclusive do próprio Zé Vicente). Ele enriqueceu a música (música, sim, por que não?), do cantador com outros instrumentos, músicos, colegas de viola. Tornando este projeto pioneiro em disco-tributo a um cantador (eu, pelo menos, não conheço outro igual).
Estão aqui reverenciando este gênio da poesia nordestina, repentistas como Raulino Silva, Rogério Meneses, Hipólito Moura, Antonio Lisboa, Edmilson Ferreira, Raimundo Caetano, Severino Feitosa e Daudete Bandeira, Oliveira de Panelas, bandas de pífanos, o forrozeiro Valdir Santos, o grande João do Pife, Tavares da Gaita, enfim, muita gente boa. Herbert Lucena divide com Zé Vicente da Paraíba a honra de cantar a antológica Quanto é Grande o Autor da Natureza, um improviso que virou referência perene da cantoria de viola. E prova do prestígio do velho cantador entre as novas gerações da viola é a homenagem que lhe presta a dupla de repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa, considerada a maior revelação da cantoria nos últimos vinte anos.
Zé Vicente da Paraíba, Viola e Amigos, é um trabalho que aponta um novo caminho para popularizar os versos de repentistas em disco. Um achado de Herbert Lucena a redescoberta de Zé Vicente, e excelente o formato que encontrou para perpetuar o talento deste mestre de uma arte que é a cara do Nordeste.

Para encerrar, a Rádio Mundo Cordel traz a obra Quanto é Grande o Autor da Natureza:

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