terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cordel, repente e Direito

Antonio Francisco, Marcos Mairton, Gustavo Luz, Ivanildo Vilanova, Zé Luís e esse rapaz, de azul, que não estou lembrando o nome, bem que poderia mandar um email para eu completar a informação.

DIREITO, CORDEL, REPENTE E UM DESAFIO AO CONTRÁRIO

Desde que se referiram ao meu cordel “O ADVOGADO, O DIABO E A BENGALA ENCANTADA” como sendo de autoria de um juiz do Rio Grande do Norte, sem sequer mencionar meu nome, nem o fato de eu ser poeta, fiquei meio ressabiado em publicar poesias tratando de assuntos jurídicos.
Mas hoje não dá pra evitar. Depois de receber uma visita do grande Zé Luís, um verdadeiro repentista da advocacia – ou um advogado do repente – não há como não misturar as ciências jurídicas e poéticas.
Por exemplo, olha como é que Zé Luís abre o livro MEDIDAS LIMINARES NO PROCESSO CIVIL, escrito em parceria com José Herval Sampaio Júnior:

Realçou Carnelluti o quanto importa
Ver que o tempo é danoso e temerário
Impedindo o Poder Judiciário
De atender os que vão à sua porta;
A Sentença, ao surgir, é natimorta,
O Processo se torna ineficaz...
Rui Barbosa, um dos mestres geniais,
Já dizia ao Brasil antigamente:
“A Justiça tardia é simplesmente
Rematada injustiça e nada mais!”

Precisamos levar Direito aos lares,
Melhorando a Justiça da República
Com Ação Popular, a Civil Pública,
Liminar nas Medidas Cautelares;
Porque são as Medidas Liminares
Supressão do efeito temporal;
Na Tutela Específica, Interdital,
No Writ, afinal, em todos esses,
Solução dos conflitos de interesses,
Recompondo o tecido social!

Mesmo humilde, esta obra traz em si
Carlos Mário Veloso, mas Cretella,
J. J. Calmon, Scarpinella,
Celso Antonio Bandeira e Teori;
Theodoro, Rangel, Buzaid, Hely,
Nelson Nery e Marcato, outra potência;
Castro Nunes, sublime inteligência;
Encontra-se, leitor, no livro inteiro,
O melhor do Processo Brasileiro
Dissecando as Tutelas de Urgência!

Quando foi me entregar o meu exemplar, Zé Luís, que tinha acabado de ler o meu livro UMA SENTENÇA, UMA AVENTURA E UMA VERGONHA, fez a dedicatória em forma de decassílabo, nela fazendo referência a várias das poesias que escrevi. Ficou assim:

Parabéns a você, poeta nato,
Que em sonhos, ouviu, entre outros nomes,
Aderaldo, Martins, Leandro Gomes,
Lhe instigando a cantar pétala e regato;
A sentença do estelionato;
O galope, um trabalho muito bom;
Ofereço a você, que nasceu com
Força, garra, talento, luz e fé,
Ser Juiz Federal, qualquer um é,
Ser poeta, só é quem trouxe o dom...

Hoje, Zé Luís me apareceu com glosas ao mote DE DIA É SENTENCIANDO/ DE NOITE É NO VIOLÃO. Sem pedir sua licença, amigo Zé Luís, vou apresentar suas glosas intercaladas com as minhas, sobre o mote DE DIA É ADVOGANDO/ E DE NOITE É NO REPENTE, como se fosse um desafio. Mas é um desafio ao contrário, pois, ao invés de se depreciarem, os contendores não economizam elogios mútuos:

ZÉ LUÍS:
A Consulex publica:
No agravo houve reforma!
Abre o Código, estuda a norma,
Lê, interpreta e aplica;
O Tribunal notifica
Pra prestar informação,
Saber se é verdade ou não
O que as partes tão falando
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Repentista de talento,
Advogado renomado,
Convence qualquer jurado,
Rebate qualquer argumento.
Zé Luís é cem por cento,
Criativo, inteligente,
Não vejo quem o enfrente
Na tribuna ou cantando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Sei que Mairton é aquele
Que supera grandes nomes
Só João e Leandro Gomes
Foram tão bons quanto ele.
Tem outro do nível dele:
É Catulo da Paixão,
Fernando Pessoa, não,
Ele é melhor que Fernando...
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Zé Luís só exagera
Quando elogia um amigo
Por isso, canta comigo,
Me dizendo que eu sou fera.
Mas, meu Deus, ai quem me dera,
Saber lhe imitar, somente,
Eu já fico bem contente
Só de lhe ouvir cantando,
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Mairton é quem veste a toga
Com calma e percuciência
Despacha, faz audiência
Cita o réu e lhe interroga;
Condena o Barão da droga,
Recebe a apelação,
Faz e revoga a prisão,
Prendendo gente e soltando
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Certa vez, vi Zé Luís,
Enfrentando dura prova
Com Ivanildo Vilanova
Cantador de quem se diz
Ser o maior do país.
Mas, naquele dia quente,
Ficou do tamanho da gente
E o Zé se agigantando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Se são tráficos estrangeiros
Ele adverte aos agentes:
“- Descreva os entorpecentes.
As lavagens de dinheiro,
Os nomes dos quadrilheiros,
A rota que as drogas vão,
Detalhe a operação:
Como, quem, aonde e quando...
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Zé Luís faz petição,
Faz sustentação oral,
Faz recurso especial
Agravo e apelação.
Sua fundamentação,
Desmantela o oponente.
Quem estiver pela frente
É bom ir se preparando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Literatura de cordel e educação



LITERATURA DE CORDEL PARA CRIANÇAS

Terminou ontem a FEIRA DO LIVRO DE MOSSORÓ, versão 2007. Lá estive no sábado (27) à noite e gostei do movimento. Muita gente visitando as lojas e no Circo da Luz também.
Demorei especialmente no stand da Editora Queima Bucha, conversando com meu amigo Gustavo Luz sobre o mundo da literatura de cordel. Saí com uma sacola cheia de cordéis, desde clássicos, como A PELEJA DE RIACHÃO COM O DIABO e a HISTÓRIA DE JUVENAL E O DRAGÃO, de Leandro Gomes de Barros, a obras mais recentes, como PAULO, O FARISEU QUE VIROU CRISTÃO e A HISTÓRIA DO COMEÇO DO MUNDO – A TEORIA DO BIG BENG, de Fernando Paixão, aliás, ambos de ótima qualidade em rima, métrica e oração. Cabra bom esse Fernando Paixão!
Mas de tudo o que vi, chamou-me particularmente a atenção a edição de cordéis voltados para o público infantil, publicados pela
Editora IMEPH, de Fortaleza. Com linguagem simples, métrica e rima perfeitas, e gramática correta, os livros ainda vêm com ilustrações muito bem trabalhadas. As obras que vi são as seguintes, e as capas estão na imagem acima:
A SEMENTE DA VERDADE: adaptação do conhecido conto de mesmo título, escrita por Fernando Paixão, com ilustrações de Arlene Holanda;
O PAVÃO MISTERIOSO: adaptação do romance de cordel de José Camelo, escrita por Arievaldo Viana, com ilustrações de Jô Oliveira.
UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ: de Rouxinol do Rinaré, com ilustrações de Rafael Limaverde.
É muito bom ver o cordel sendo utilizado na educação das crianças, sem falar que elas adoram e se divertem muito com a leitura.
Parabéns a todos que vêm apoiando essas iniciativas!
Segue um trecho de

UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ

Vento que sopra do mar
Enquanto a tarde desmaia
Vem contar-me a antiga lenda
Que corre da serra à praia
A Lenda do Ceará
“Terra onde canta a Jandaia”.

Dizem que há muito tempo
No mais distante passado
Onde hoje é o Ceará
O nosso querido Estado
Era um chão virgem, somente
Por nativos habitado.

Nossos índios eram livres,
Dos litorais às ribeiras,
Nos sertões e altas serras
Viviam tribos guerreiras
E as Jandaias cantavam
Pelas copas das palmeiras.

Até que um dia homens maus
Chegaram aqui pelo mar,
Vindos de outras nações
Para esta terra explorar
E pela força e astúcia
Puderam, enfim, dominar.

Nossos índios reagiram
Aos tais colonizadores,
Uns morreram, outros fizeram
Acordo com os invasores...
Pois os vencidos se tornam
Escravos dos vencedores!

Num tempo ainda distante,
Mas já próximo do presente,
Quando com a posse das terras
Ficou o branco somente,
No litoral tinha ainda
Uma tribo remanescente.

E nessa tribo um costume
Ainda era preservado
Sentava-se um Pajé velho
Por curumins rodeado
Junto à fogueira e contava
As histórias do passado.

E assim segue a história, contando a lenda que retrata a história daquela tribo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poesia popular e estrangeirismo



ESTRANGEIRISMO


Pra fechar a semana, esse intressante vídeo, de Carlos Silva e Sandra Regina, que peguei do Yahoo! Vídeo.

Para saber mais sobre os autores, veja http://www.sacpaixao.net/visualizar.php?idt=644022.

Bom fim de semana!

ou Have a nice weekend!


quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O Poeta do Absurdo na Literatura de Cordel


TAPIOCA RECHEADA COM POESIA DE CORDEL

Deslocando-me de Mossoró para Fortaleza, parei pertinho da capital cearense - já na parte onde a CE-040 se confunde com a Avenida Washington Soares - para comer uma tapioca com chocolate quente. Geralmente, toma-se a tapioca com café, mas não gosto de café.
Cheguei já pensando na tapioca recheada com queijo e ovo, mas, na entrada do estabelecimento, outro recheio completou o repasto: o cordel “A PELEJA DE ZÉ DO JATI COM ZÉ LIMEIRA”, de Anchieta Dantas, o “Zé do Jati”, conhecido personagem do Programa Garras da Patrulha, da TV Diário, de Fortaleza.

Pra quem não conhece, Jati é uma pequena cidade situada bem no sul do Ceará, quase na divisa com os Estados de Pernambuco e da Paraíba, onde no passado mandavam os índios Kariris.


Já tive oportunidade de incluir Jati em meus versos, quando falei da chegada da Justiça Federal ao Cariri:

Pois a Vara Federal,
Instalada em Juazeiro,
Cidade de muita fé,
Que acolhe tanto romeiro,
Tem sua jurisdição
Começando no sertão
E subindo pelas serras,
Até chegar a um lugar
De onde dá pra olhar
Pernambuco e suas terras.

Começando seu alcance
Nas terras do centro-sul,
A partir de Acopiara,
Passando por Iguatu,
Se estende até Mauriti,
De Brejo Santo a Jati,
Alargando suas fronteiras
Baixio, Ipaumirim,
Farias Brito e Jardim,
Campos Sales e Porteiras.

Sobre o Zé do Jati, disse a jornalista Lea Queiroz, “é autor dos livros NÓS E A METRÓPOLE, O PASSAGEIRO DO TEMPO e RANCHO NOVA ESPERANÇA. Diz a JORNALISTA ISABEL PINHEIRO, que acompanha seus feitos literários há 20 anos, trata-se de uma obra literária que desperta a atenção e mexe com as emoções mais escondidas”.

Para saber mais sobre Zé Limeira, visite http://www.revista.agulha.nom.br/otejo.html .

Segue um trecho da “peleja”:

ZÉ LIMEIRA
Getúlio Vargas morreu
Foi com saudade da esposa
Lampião inda tá vivo
Morando perto de Sousa
Por detrás do Sete-Estrelo
Tem um casal de raposa.

ZÉ DO JATI
Foram amigos e compadres
Julio César de Lampião
E sócios em uma fábrica
De chocolate e sabão
E um dia de madrugada
Ficaram sem fazer nada
Numa noite de São João.

ZÉ LIMEIRA
Santo Antonio foi pescar
Mussú no rio Jordão
Quando jogou o anzol
Arrastou um camião
Deu-lhe uma caimbra no pé
Nisso passou São José
Com três abrroba de pão.

ZÉ DO JATI
Nelson Piquet comprovou
Que é um grande vaqueiro
São Tomé já fez promessa
Pra pagar no Juazeiro
E São José numa vã
Faz lotação de manhã
De Cabrobó a Salgueiro.

ZÉ LIMEIRA
Jesus ia rezar missa
Na capela de Belém
Chegou Judas Carioca
Que viajava de trem
Trazia trinta macaco
Botou tudo num buraco
Não tinham nenhum vintém.

ZÉ DO JATI
Jesus nasceu em Belém
Pertinho de Cabrobó
Quando passou Jati
Já era “quage” de maió
Passou dirigindo um jipe
Com febre e com muita gripe
Em busca de Mossoró.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Rap e repente


ENCONTRO DE RAPPERS E REPENTISTAS

Chegou às minhas mãos hoje, por obra do meu amigo Eduardo Moreira, o folder informativo do RAP-REP, I ENCONTRO NACIONAL DE RAPPERS E REPENTISTAS, marcado para os dias 26 a 28 de outubro deste ano de 2007.
Achei a idéia muito interessante. Afinal, embora haja diferenças quanto à forma, em ambas as manifestações estão presentes a improvisação e a temática popular.
Os interessados eM maiores informações podem clicar no link
Rap Rep - Encontro Nacional de Rappers e Repentistas.
Segue um trecho do site do evento:

Rap & Rep

Os beats do hip-hop se encontram com os motes da cantoria entre os dias 26 a 28 de outubro, em Campina Grande, na Paraíba. Conhecida pelo Maior São João do Mundo e pelo internacional Encontro Para Nova Consciência, Campina, a 120 km da capital João Pessoa, irá sediar o I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas, que ganhou o apelido de 'Rap & Rep'.O evento, o primeiro do gênero no país, é promovido pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Governo da Paraíba, por meio da Subsecretaria de Cultura do Estado e com apoio cultural da Petrobras.Em quatro dias, estarão em Campina Grande, no Spazzio, nomes importantes do universo do hip-hop, como Zé Brow, Nelso Triunfo, Marechal, Z`Africa Brasil, Gabriel O Pensador e Gog, e da cultura popular, como Oliveira de Panelas, Cajú e castanha, Cabruêra, Selma do Côco e As 'Ceguinhas' de Campina (as irmãs protagonistas de 'A Pessoa É Para o Que Nasce'), entre tantos outros.A idéia do I Rap & Rep é mostrar que gêneros aparentemente tão distintos têm muito mais em comum do que nós pensamos. Assim a rima e a poesia, a dança de rua, a discotecagem e o graffiti irão coexistir junto com a embola, o cordel e o próprio repente.Tudo isso em meio a uma grande feira de música e informação, com shows, oficinas e debates, com acesso gratuito ao público.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cordel e índios (William Brito)


OS ÍNDIOS BRASILEIROS NO CORDEL DE WILLIAM BRITO

Um amigo perguntou se eu tinha algum cordel sobre índios brasileiros. Fui buscar em meu pequeno acervo e achei três: TRATADO DE PAZ (entre os reis Ca nindé e de Portugal), de Gerardo Carvalho, o Pardal; IRACEMA (a virgem dos lábios de mel), de João Martins de Athayde; e A SAGA DOS ÍNDIOS BRASILEIROS, de William Brito, o homem que ocupa a cadeira número um da Academia dos Cordelistas do Crato, que escolhi para transcrever neste post.
O folheto, de 2002, que atendeu a um pedido do Ministério Público Federal no Ceará, e contou com o apoio do IPHAN, FUNAI, CNBB, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Governo do Ceará e dos Índios Cearenses, começa com uma apresentação, de Josenir Alves de Lacerda, que traduz bem o sentimento que nos invade, quando o lemos. Diz Lacerda:

“Neste trabalho: A Saga dos Índios Brasileiros, o poeta William Brito faz do Cordel um portal e o abre com a chave mágica da inspiração, deixando que o leitor veja e vivencie o desenrolar dos fatos. Apesar do enredo ser entremeado de luta, traição, injustiça, exploração, perseguição e desamor aos nossos irmãos indígenas, devemos ler como quem sorve bebida de apurado sabor e que no lugar de embriagar, desperta e aguça sentimentos de brasilidade e compromisso para com os nossos ancestrais, cujo sangue quente, forte e guerreiro carregamos nas veias e teimamos em esquecer ou ignorar. Mais uma vez o poeta não poupa talento e mostra as diversas facetas e propostas do cordel como veículo de denúncia, didática, esclarecimento, conscientização. Enquanto houver mente aberta e consciente como a do poeta William, com coragem de expor páginas tão cruéis e injustas, haverá a certeza dde que alguma luz ainda brilha no horizonte da nossa história acenando com uma réstia de esperança”.


A SAGA DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

Sonhei com Tupã pedindo
Pra minha arte dispor
A serviço dos indígenas
E um folheto compor
Mostrando ao longo da história
A penosa trajetória
De humilhação e dor.

Me dispus porque carrego
Herança dos Kariri,
Sou mestiço como muitos
Que adoram roer piqui,
Acham a natureza jóia,
Se esbaldam num tipóia
Babam por mel de jati.

Me ensinaram no ginásio
Que somente há 10.000 anos
Quando o planeta esfriou
Os mongóis tomaram o plano
Do mar congelado usar
E da Ásia se mudar
Pro espaço americano.

E da América do Norte
Desceram para a Central,
Continuaram pro Sul
Fugindo do frio austral
E aqui se deram bem
Que era terra de ninguém
Rica em planta e animal.

Mas a arqueologia
Desmentiu esta versão,
Nas terras do Piauí,
No miolo do sertão,
Em São Raimundo Nonato
Tem vestígio de artefato
Que ensina outra lição.

Há mais de 30.000 anos
Já vivia no Brasil,
Um povo forte, trigueiro,
Gregário, simples, viril,
Adaptado à natura,
Desenvolvendo cultura
Debaixo do céu anil.

Em muitos pontos se encontra
Do nosso vasto Nordeste,
Vestígios dos ancestrais,
Na mata, sertão, agreste,
Eles não se aquietavam,
No território migravam
Fugindo de fome e peste.

Com muito esforço esse povo
Que era esperto e curioso,
Pesquisou a flora e a fauna
Com um resultado assombroso
Separando o que convinha
A comida e a “meizinha”
Do que era venenoso.

Ao longo do tempo o povo
No Brasil foi se espalhando
E em razão do ambiente
Aos poucos se transformando
Formando várias culturas,
Esquecendo a essa altura
O parentesco e brigando.

Lutava-se por comida,
Por coisas essenciais,
Não por ouro, pedrarias,
Ou por outros vis metais;
Se brigava, isso é notório,
Pelo santo território,
Como brigam os animais.

Pois bem, no século XV,
Em pleno mercantilismo,
Os europeus expandiram
O seu colonialismo.
Colombo, Pinzón, Cabral,
Tornaram a aldeia “global”
Fomentaram o consumismo.

Espanhóis e Lusitanos,
Bem antes da invasão,
Dividiram as Américas,
Depois de grande questão;
Pra guerra faltou um triz
E quem serviu de juiz
Foi o papado cristão.

Os nativos receberam
O povo vindo do mar,
Com boa disposição
Foram confraternizar
Depois se viram traídos,
Explorados, perseguidos,
Obrigados a arribar.

Cerca de 5 milhões
De índios tinha o Brasil,
E etnias, sabe Deus,
Talvez passasse de mil,
O terrível, o que eu lamento,
É não restar 10%
Dessa gente varonil.

Martins Soares Moreno,
Chegando no Ceará,
22 povos achou;
e hoje, quantos haverá?
Segundo doutor Pinheiro,
Só tem 11 companheiro,
Até onde a ciosa irá?

Os europeus cá vieram
Somente atrás da riqueza
Carregaram o pau-brasil,
Depredaram a natureza
Com fogo, foice e machado,
Trouxeram a cana e o gado,
Comprometeram a beleza.

Trouxeram ainda ao Brasil
A mancha da escravidão,
Africanos e ameríndios
Padeceram de aflição
De virar mercadoria.
Haverá selvageria
Acaso igual, cidadão?

Os tupis do litoral
Sofreram primeiramente
E os tapuias do sertão
Padeceram mais na frente,
Espanhóis ou Holandeses,
Lusitanos ou Franceses
Não agiam diferente.

Pra eles índios e negros,
Não tinham dignidade,
Se pareciam com gente
Mas não eram, de verdade.
Eram simples animais
Como o gado dos currais,
Sem direito nem piedade.

O tal Marquês de Pombal
Proibiu língua nativa,
Todos tinham de falar
Aquela língua aflitiva
Do malsinado invasor,
Muitos inda tem pavor
Da língua coercitiva.

E a medicina da terra,
Conhecida do pajé,
Foi vetada para os índios
Como também sua fé;
Quem não virasse cristão
Comprava grande questão
Com a forte Santa Sé.

As terras foram tomadas
Pelo gado e pela cana
E os índios missionados
Em Caucaia e Messejana,
Viçosa, Almofala, Crato
E Parangaba é o relato
De uma sina desumana.

À custa de muito sangue,
Deu-se a colonização,
Os nativos se uniram
Numa Confederação
Para enfrentar o invasor,
Mas, mesmo com seu penhor
Perderam a conflagração.

E quem ganhou a contenda
Fez a versão da história,
Fez-se o mocinho do filme,
Cobriu-se de honra e glória,
E o perdedor sem direito
Ficou cheio de defeito
E privado de memória.

Guerra química e biológica
Para os índios foi fatal,
Eles não tinham defesa
Contra vírus, coisa e tal;
E até bem pouco uns ladinos
Queimaram o índio Galdino
No Distrito Federal.

Na festa em Porto Seguro
Que lembrou a invasão,
Os índios foram excluídos
Sem direito a expressão
E todos que protestaram
Dos polícias apanharam
Sem dó e nem compaixão.

Mas pega a coisa a mudar
Na nossa sociedade
Os índios já se organizam
Reforçando a identidade,
E sua luta é tamanha
Que foi tema de campanha
Dita da fraternidade.

Somos um povo mestiço
Não temos o que negar,
Mas a discriminação
Teima em nos acompanhar,
Deixemos de preconceito,
Vamos todos dar um jeito
De nos unir, nos amar.

Vamos vencer o apartheid
Econômico e social,
Acabar com a exclusão
Criminosa e imoral
Ultrapassar a mazela
Que separa a favela
Condomínio colossal.

Honremos no Ceará
Kariris e Cariús,
Calabaças, Potiguares,
Quixelôs e Pacajús,
Kanindés e Tabajaras,
Tremembés, Jaguaribaras,
Jucases, Tacarijús.

Que as novas gerações
Protejam os Tremembés,
Pitaguarys e Tapebas,
Jenipapos, Kanindés,
E que nunca falte abrigo
Pra memória dos antigos
Como os grandes Anacés.

Que o Brasil respeito o índio
Como etnia ancestral.
Genética e culturalmente
Basilar, essencial,
Respeite a diversidade
Que faz nossa identidade
Ser mais rica, mais plural.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Poesia de cordel e Música Popular Brasileira

video
CORDEL PARA SE CANTAR

No post anterior, falei do cordel ME ENGANEI COM MINHA NOIVA, de Luiz Campos, e de sua gravação no CD de Genildo Costa.
Isso me fez lembrar de inúmeros exemplos de músicas que utilizam os versos de cordel em sua letra. O próprio Genildo gravou músicas como MEU BRASIL DE CANTO A CANTO, com letra de Antonio Francisco, em “dez pés em quadrão”, e BAIXO ASSU, de Crispiniano Neto, um espetáculo de martelo agalopado.
O martelo agalopado é encontrado também na voz de Elba Ramalho, quando gravou os versos de Ivanildo Vilanova, IMAGINE O BRASIL SER DIVIDIDO/ E O NORDESTE FICAR INDEPENDENTE, e na voz de Zé Ramalho e Amelinha em MULHER NOVA BONITA E CARINHOSA/ FAZ UM HOMEM GEMER SEM SENTIR DOR.
De patativa do Assaré, Luiz Gonzaga gravou A TRISTE PARTIDA, e Fagner gravou VACA ESTRELA E BOI FUBÁ.
Se você lembra de mais alguma música feita a partir de versos de cordel, envie um comentário, para que outros tenham acesso.
Encerro com um “galope à beira mar” de Antonio Francisco:

NA BEIRA DO MAR
Antonio Francisco e Mazinho
Na beira do mar, um pouco apressado,
O tênis esquerdo caiu do meu pé.
Parei pra calçá-lo, aí eu dei fé
Das coisas que antes não tinha notado;
O meu coração bateu apressado,
Pedindo a mim mesmo pra me perdoar
Por não ter parado nunca pra olhar
As coisas que tem no mar pra se ver,
Não fiz outra coisa somente escrever
As coisas que tem na beira do mar.

Na beira do mar tem fonte que chora,
Dunas de areias com ventos uivantes,
Marés ritmadas com ondas gigantes,
Coqueiros, palmeiras que formam a flora...
Tem peixe que pula da água pra fora,
Tem outros que sabem até mesmo voar,
Golfinhos que dão cambalhotas no ar,
Na crista da onda, quando ela se agita,
Tem vento que canta, gaivota que grita,
Brincando de tique na beira do mar.

Na beira do mar eu parei um segundo
Para observar um grande coqueiro,
Mas parecia um velho guerreiro
Em fim de carreira cansado e corcundo:
Raízes de fora, quase moribundo,
Pedindo pro vento vir lhe derrubar,
Que antes a morte do que recordar
Que toda a sua vida, suaves marés
Vinham de manhã lamber os seus pés,
Com a língua gelada da boca do mar.

Na beira do mar, um pouco sisudo,
Chapéu na cabeça, cobrindo o semblante,
E me perguntando qual fabricante
Que se lembrou de fazer isso tudo?
Qual engenheiro que tem tanto estudo?
A cabeça fervia de tanto pensar.
Mas disse-me o vento, no seu linguajar:
Esfria a cabeça e tira o chapéu,
Quem fez isso tudo reside no céu...
Só deixou as pegadas na beira do mar.

sábado, 6 de outubro de 2007

Cordel e música popular brasileira

video
GENILDO COSTA E O CORDEL DE LUIZ CAMPOS

Acabei de falar ao telefone com meu amigo Genildo Costa - o criador do Canto Potiguar - e fiquei surpreso com a coincidência. Eu ia pedir a ele autorização para por neste blog o áudio de ME ENGANEI COM MINHA NOIVA, junto ao cordel de Luiz Campos, quando ele falou que estava se dirigindo para a TCM - TV a CAbo Mossoró - para gravar uma entrevista junto com o poeta Luiz Campos, sendo que, no programa iria cantar exatamente essa música.
É coincidência demais para ser coincidência. Acho que são os deuses do cordel e da música popular que estão em paz conosco. Leia o texto abaixo, e não deixe de ouvir a música. Vale a pena!
ME ENGANEI COM MINHA NOIVA

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio,
Devido ser muito feio
As moça não me queria.
Quando pr’um forró eu ia
Com qualquer colega meu,
Eles confiava neu
Ia beber e brincar
No fim da festa ia arengar
Quem ia preso era eu.

E pra arranjar namoro
Eu toda via fui mole.
Eu cantei samba, eu puxei fole,
Usei um cabelo louro,
A boca cheia de ouro,
Chega brilhava de dia.
Quando pr’um forró eu ia
Cheirava que nem uma rosa,
Mas, se eu caçava umas prosa,
As moça não me queria.

Aí eu dizia: “É catimbó
Que alguém botou, mas não sai,
Que mamãe casou com papai,
Vovô casou com vovó,
Inté meu irmão Chicó,
Que é muito mais feio que eu,
Namorou, casou, viveu
Com duas mulher, inté,
Só eu não acho muié
Que queira se esfregar neu.

Um dia Deus descuidou-se,
O satanás se esqueceu,
Que Vicença olhou pra eu
Com uns oião de bico dôce,
Nossos ói se amisturou-se
Como feijão com arroz,
Se abufelemo nós dois
Num amor tão violento
Que marquemo o casamento
Pra quatro dias depois.

No dia de se amarrar,
Se arrumou, eu e ela.
Dei de garra na mão dela
E fui pra igreja casar.
Cheguei no pés do altar,
Recebi a santa bença,
Jurei não ter desavença
Entre eu e minha estposa,
O padre disse umas côsa
E fui viver com Vicença.

Cheguei em casa mais ela,
Fui logo me agasalhando
Que mermo que eu ia pensando
Que ia dormir na costela.
Vicença fez a novela
Por dentro da camarinha,
Quebrou uns troçim que eu tinha,
Me ameaçou na bala.
Ela foi dormir na sala
Eu fui dormir nca cozinha.

Da vida perdi o gosto
Porque Vicença fez isso.
De manhã fui pro serviço,
Mas pra morrer de desgosto.
Cheguei em casa, o sol posto,
Vicença me arrecebeu,
Inté um café freveu,
Botou pra nós dois cear,
Mas, quando foi se deitar,
Nem sequer olhou pra eu.

De Deus perdi a crença,
De nome chamei uns trinta,
Botei uma faca na cinta,
E fui conversar com Vicença.
Vicença deu uma doença
Quando falei em amor,
Aí ela me perguntou:
“Cê pensa que eu sou o que?
Eu me casei com você
Pra lhe fazer um favor”.

Bati com ela no chão,
Puxei a lapa de faca,
Cortei o cóis da casaca
E o elástico do calção.
Vicença tinha razão
De não querer bem a eu.
Não era com nojo deu,
Ou porque não fosse séria,
Sabe Vicença quem era,
Era macho que nem eu.

Eu muito me arrependi
Porque me casei com ela.
Falei logo com o pai dela
E de manhã devolvi.
Muito desgosto eu senti,
Que quase morri inté,
Homem trajo de muié
Tem muito de mundo afora,
Só caso com outra agora
Logo sabendo quem é.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel II



A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL (2ª Parte)


Prosseguindo em nossos estudos sobre a técnica do cordel, vejamos os gêneros destacados pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC. São eles:



Parcela ou Verso de quatro sílabas
- O mais curto conhecido na literatura de cordel. Observemos que o exemplo abaixo forma uma obra de dez pés.
Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu
o pau bateu
subiu poeira
aqui na feira
não fica gente
queimo a semente
da bananeira.

Verso de cinco sílabas
- Já citada na referência a Leonardo Mota, chamada redondilha menor. O exemplo dado pela ABLC é um trecho da peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, da autoria de Firmino Teixeira do Amaral. Nele percebe-se nitidamente que a métrica de Aderaldo era melhor que a de Zé Pretinho:

Pretinho:
no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala.

Cego:
Negro, és monturo
Molambo rasgado
Cachimbo apagado
Recanto de muro
Negro sem futuro
Perna de tição
Boca de porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão .

Estrofes de quatro versos de sete sílabas – Modalidade que evoluiu para a estrofe de seis versos, ou sextilha:

O Mergulhão quando canta
Incha a veia do pescoço
Parece um cachorro velho
Quando está roendo osso.

Sextilhas – Com estrofes de seis versos de sete sílabas, segundo a ABLC, “a modalidade mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Também muito usadas nas sátiras políticas e sociais. É uma modalidade que apresenta nada menos de cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado”. Essas variações, entretanto, dizem respeito à rima, razão pela qual não transcreverei os exemplos aqui. Mas estão todos à disposição do leitor no site da ABLC. Um exemplo da forma mais tradicional de sextilha:

Meu avô tinha um ditado
meu pai dizia também:
não tenho medo do homem
nem do ronco que ele tem
um besouro também ronca
vou olhar não é ninguém.
Setilhas – Já descrita como “obra de sete pés”:

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu.
- Quem é você, Cavalheiro -
- Moleque, sou cangaceiro -
Lampião lhe respondeu.

- Não senhor - Satanás, disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora
e já estou com vontade
de mandar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

Ainda segundo a ABLC, “esta modalidade é, também, usada em vários estilos de mourão, que pode ser cantado em seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas”. Exemplos:

Cantador A- Eu sou maior do que Deus
maior do que Deus eu sou

Cantador B - Você diz que não se engana
mas agora se enganou
Cantador A - Eu não estou enganado
eu sou maior no pecado
porque Deus nunca pecou.

Ou com todos os versos rimados, a exemplo das sextilhas explicadas antes:

Cantador A -Este verso não é seu
você tomou emprestado
Cantador B - Não reclame o verso meu
que é certo e metrificado
Cantador A -Esse verso é de Noberto
Se fosse seu estava certo
como não é está errado.
Oito pés de quadrão ou Oitavas – Estilo também já citado, feito de estrofes de oito versos de sete sílabas:

Diga Deus Onipotente
Se é você, realmente
Que autoriza, que consente
No meu sertão tanta dor
Se o povo imerso no lodo
apregoa com denodo
que seu coração é todo
De luz, de paz e de amor.

Décimas – Já apresentados aqui como”dez pés em quadrão”:
Eram doze cavalheiros
Homens muito valorosos
Destemidos, corajosos
Entre todos os Guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os doze pares de França.
Martelo Agalopado – Gênero também citado no post anterior, o Martelo agalopado, estrofe dez versos de dez sílabas, é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. Segundo o site da ABLC. “as martelianas não tinham, como o nosso martelo agalopado, compromisso com o número de versos para a composição das estrofes. Alongava-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. Como exemplo, vejamos estes alexandrinos”:

"Visitando Deus a Adão no Paraíso
achou-o triste por viver no abandono,
fê-lo dormir logo um pesado sono
e lhe arrancou uma costela, de improviso
estando fresca ficou Deus indeciso
e a pôs ao Sol para secar um momento
mas por causa, talvez dum esquecimento
chegou um cachorro e a carregou,
nessa hora furioso Deus ficou
com a grande ousadia do animal
que lhe furtara o bom material
feito para a construção da mulher,
estou certo, acredite quem quiser
eu não sou mentiroso nem vilão,
nessa hora correu Deus atrás do cão
e não podendo alcançar-lhe e dá-lhe cabo
cortou-lhe simplesmente o meio rabo
e enquanto Adão estava na trevas
Deus pegou o rabo do cão e fez a Eva."

O estilo caiu no esquecimento, com o desaparecimento do seu criador, professor Jaime Pedro Martelo, em 1727, até que em 1898, José Galdino da Silva Duda deu “à luz feição definitiva ao nosso atual martelo agalopado, tão querido quanto lindo. Pedro Bandeira não nos deixa mentir”:

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
quanto é grande o poder da Natureza.

Há, também, o martelo de seis versos:

Tenho agora um martelo de dez quinas
fabricado por mãos misteriosas
enfeitado de pedras cristalinas
das mais raras, bastante preciosas,
foi achado nas águas saturninas
pelas musas do céu, filhas ditosas.

Galope à Beira Mar
– “Com versos de onze sílabas, portanto mais longos do que os de martelo agalopado, são os de galope à beira mar, como estes da autoria de Joaquim Filho”:

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

Meia Quadra - Outra interessante modalidade é a Meia Quadra ou versos de quinze sílabas:

Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão
Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.

Só os exemplos relacionados neste post e no anterior, já mostram o quão variadas são as formas utilizadas pela Literatura de Cordel. Mas há outras, que ainda pretendo mencionar.

Por enquanto, chamo a atenção para o fato de que a formação de cada um desses gêneros depende essencialmente do manuseio de três variáveis: o emparelhamento das rimas (do que pretendo falar em outra oportunidade), a quantidade de sílabas em cada verso e a quantidade de versos em cada estrofe.

Aqui me valho, mais uma vez, da lição de Zé Maria de Fortaleza para esclarecer que verso é cada uma das linhas de um poema, enquanto estrofe é “um grupo de versos de um trabalho poético, em geral com sentido completo” (Acorda Cordel na Sala de Aula, p. 36).

Assim, combinando quantidade de sílabas em uma linha e quantidade de linhas em uma estrofe, vimos que são usados versos de cinco sílabas em estrofes de seis, sete, oito ou dez linhas, o mesmo ocorrendo com os versos de sete, dez ou onze sílabas.

Com relação à quantidade de sílabas em um verso, as variedades mais comuns são a redondilha maior – sete sílabas – e a redondilha menor – cinco sílabas, embora a forma preferida dos cantadores seja, sem dúvida, o decassílabo (dez sílabas), utilizada no martelo agalopado, considerado por muitos o vestibular do cantador. Os versos de onze sílabas do galope à beira-mar também tem o seu charme, e dão um ritmo bem interessante na execução, seja cantada ou declamada.

Penso que o domínio da métrica é um dos aspectos mais importantes na elaboração de um cordel, pois, como diz Arievaldo Viana:

Cordel desmetrificado
Não dá pra ler em voz alta.
Tem hora que sobra métrica,
Tem hora que a rima falta,
Inda tem pesquisador
Com diploma de doutor
Que esse mau “cordel” exalta.

E não é só uma questão de respeitar a métrica, pra não deixar o cordel de “pé quebrado”. O bom cordelista, assim como o bom cantador repentista, deve ter a capacidade de elaborar sua poesia na maior variedade possível de estilos, por pelo menos dois motivos. Primeiro, para dar à poesia um ritmo adequado ao tema que está sendo tratado.

Por exemplo, a redondilha menor funciona melhor para narrativas mais rápidas, enquanto a redondilha maior permite uma abordagem mais cadenciada. Vejamos, a seguinte estrofe, de minha autoria, em redondilha menor, narrando uma situação na qual um marido traído tenta matar a mulher, no meio de uma feira, e um tenente da polícia tenta impedi-lo:

O cabra valente
Puxou a pexeira,
No meio da feira,
Gritou pro tenente:
- Não fique na frente
Que você se fura!
Essa criatura
Agora me paga.
Hoje ela se apaga
Ninguém me segura.

A mesma narração poderia ser feita em redondilha maior, mas tem-se a impressão de que tudo está acontecendo mais lentamente:

O cabra era valente
E puxou logo a peixeira
Ali, no meio de feira,
Gritou para o tenente:
- Não fique na minha frente
Ou então você se fura!
Hoje essa criatura,
O que me deve me paga
Ela agora se apaga
Ninguém aqui me segura!

O segundo motivo pelo qual é importante variar de estilo, é não cansar o leitor ou o espectador. Quando um autor sempre escreve em sextilhas, só em ver a capa do folheto, o leitor já sabe como serão os versos, e isso o desvaloriza. Se os cordéis são reunidos em um livro, a repetição de um único estilo fica ainda mais entediante. Nas apresentações em declamações e cantorias – e agora, com a proliferação de CD’s de cordel – a variação de estilos ganha ainda mais importância, pois ficaria monótono ouvir todo um CD em sextilhas ou setilhas.

Por aqui encerro este post, cujo assunto ainda está por concluir, e logo devo voltar a ele, para falar da contagem das sílabas e de outros estilos, como o “martelo perguntado”.

Veja também: A técnica de fazer cordel (1ª parte)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Navegando no cordel


video


POESIA DE CORDEL EM ALTO MAR

Antes de retomar os estudos sobre a técnica de se fazer um cordel, mais um momento daqueles em que a gente faz um cordel meio de improviso, pra registrar um momento importante, agradável ou os dois.

Era fevereiro de 2006, e eu e minha esposa, Natália, estávamos viajando pelo litoral do Nordeste Brasileiro, no navio Pacific. Toda noite acontecia um show no salão principal do navio. Na última noite, o show era “O Turista é o Artista”, e era feito, obviamente, pelos próprios passageiros.

Quando soube disso, logo pela manhã, fiz imediatamente um cordel, registrando os principais pontos da viagem. À tarde, ensaiei com a banda, pois o mote seria apresentado como um refrãozinho cantado, e à noite apresentei a peça. O pessoal se divertiu um bocado.

Para minha maior alegria, Natália registrou tudo com nossa câmera digital. O clipe está aí em cima; o texto, abaixo:

NAVEGANDO
Por Marcos Mairton

Quando olhei para o navio
Atracado ali no cais
Eu pensei como seria
Muito bom, até demais,
Conhecer os litorais
As praias do meu Brasil
Aquelas que Cabral viu
Quando aqui foi chegando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Embarquei todo animado
Na maior felicidade
Mais feliz fiquei ainda
Quando vi minha cidade
Já olhando, com saudade,
Para o barco que partia
Dentro dele, eu lhe dizia:
– Logo estaremos voltando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Daquele dia até hoje
Navegamos um bocado
Do balanço do navio
Nunca fiquei enjoado
Fiquei foi maravilhado
De encontrar tanta beleza
Que Deus ou a Natureza
Por aqui foi espalhando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Foram tantas belas praias
Que daqui pudemos ver
Que na memória gravamos
Pra nunca mais esquecer
Que nem tento descrever
Com palavras o que vimos
Desde o dia em que partimos
Neste navio embarcando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Mas como nada acontece
Do jeito que a gente sonha
Não pude desembarcar
Em Fernando de Noronha
Moça, não fique tristonha,
Foi pra nossa segurança
Tenho muita esperança
De voltar, só não sei quando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Aqui do lado de dentro
Desta bela embarcação
Recebemos o carinho
De toda tripulação
Vou dizer: - Ó capitão!
Comandante Antonio Pata
A vossa equipe me trata
Como um rei, tá me mimando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

É hora da despedida
Já começo a ter saudade
Do navio, das pessoas,
De cada nova amizade
Volto pra minha cidade
No próximo amanhecer
Mas nunca vou esquecer
Deste Salão Carousel
Do Lennon e do Iel,
Nem da Banda Salvatagem
De, durante a viagem,
Andar no Deck Riviera,
Aloha, Lido, quem dera,
Voltar aqui, novamente,
E encontrar toda essa gente
Que estou encontrando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

A técnica de fazer cordel

Gravura da capa do livro "Cantadores", de Leonardo Mota

A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL

Certa vez ouvi William Brito, da Academia dos Cordelistas do Crato, dizer que o cordel é uma daquelas coisas que a gente primeiro aprende a fazer e depois aprende como é que faz.

De fato, pelos tantos nomes importantes da Literatura de Cordel que tiveram pouco estudo, é possível perceber que muitos passam a vida fazendo – ou pelos começam a fazer - as poesias, sem nunca ter estudado a contagem das sílabas ou a estrutura das rimas. Essas pessoas simplesmente têm o dom da poesia, dom esse muitas vezes despertado ao ouvir as pelejas dos cantadores nos desafios, ou a declamação dos cordéis, lidos ou decorados.

Isso não quer dizer que não seja importante estudar as técnicas, pois mesmo aqueles que nasceram com o dom, ou que aprenderam a arte do versejar na prática, acabam por aprender o que é uma sétima, uma décima, ou um galope à beira-mar. Além do que, a Literatura de Cordel é extremamente exigente com a forma, somente sendo reconhecida como de boa qualidade quando atende aos requisitos de rima, métrica e oração, como bem observa Arievaldo Viana, no Acorda Cordel na Sala de Aula:

Porém, professor, cuidado!
Escute o que eu vou dizer:
Nem todo folheto serve,
Tem que saber escolher.
Observe com atenção:
MÉTRICA, RIMA e ORAÇÃO,
Todo cordel deve ter.

No mesmo livro, Zé Maria de Fortaleza, explica:
Métrica: é a medida das sílabas de cada verso, em determinado gênero.
Rima: é a correspondência entre sons, com palavras diferentes.
Oração: é a coerência, encadeamento, coordenação, precisão, objetividade e fidelidade ao tema.

Neste texto, dedicar-me-ei especificamente à métrica, deixando a rima e a oração para outros que ainda pretendo escrever.

De uma certa forma, é a métrica que define os vários gêneros de poesia utilizados pela Literatura de Cordel. Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, destaca os gêneros poéticos comumente utilizados pelos cantadores, cuja nomenclatura leva em consideração os seguintes conceitos: “obra é qualquer estrofe; é o verso, a linha”. Daí a denominação que se verá nos exemplos a seguir: “obra de seis, sete ou oito pés”.

Os estilos citados pelo autor são os seguintes, em cujos exemplos fiz correções na escrita, pois sou partidário do uso correto do vernáculo na Literatura de Cordel.

Obra de seis pés:

Agora vem-me à lembrança
Os passos do meu sertão
Pomba de bando, asa branca
Marreca, socó, carão,
Também pássaro pombinha
Arara e currupião.


Obra de sete pés:

Uma Carta de ABC
E uma velha Tabuada,
Um punhado de cordéis
Numa maleta encantada,
Me deram luz do saber.
Ali eu pude aprender
Até a História Sagrada.


Obra de oito pés

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.


Moirão de cinco pés:

Vamos cantar o moirão
Prestando toda atenção
Que o moirão bem estudado
É obra que faz agrado
E causa satisfação.


Moirão de sete (que é uma obra de sete pés):

Vamos cantar o moirão
Para o povo apreciar
Me diga logo o assunto
Em que nós vamos cantar
Meu colega, dê começo,
Que eu apenas me ofereço
Só mesmo pra acompanhar.


O martelo com versos de cinco sílabas, chamado de “embolada”:

Sou cobra de veado
Esturro de leão
Fiz pauta com o cão
Mato envenenado,
Sou desembaraçado,
Eu estruo gente,
Sou que nem serpente,
Rifle carregado,
Cantador lesado
Mato de repente.


O martelo com versos de sete sílabas, chamado “dez pés em quadrão”:

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio
Devido eu ser muito feio
As moças não me queriam
Quando prum forró eu ia
Com qualquer colega meu
Eles confiavam n’eu
Iam beber e brincar
No fim da fest’ia arengar,
Quem ia preso era eu.


O martelo com versos de dez sílabas, chamado “gabinete” ou "martelo agalopado". Neste, preferi usar uma estrofe minha como exemplo, do cordel "O viajante e o sábio":

Digo, ainda, com toda segurança,
Não se guarda a luz acesa num armário
Não se ensina padre nosso a vigário
A prudência é irmã da desconfiança
Não aceite o peso de qualquer balança
Pois nem todo rezador merece fé
Muita coisa parece mas não é
Muita coisa que é não se parece
Sob as vistas do dono a planta cresce
Um sapato não dá em qualquer pé.

Obra de nove por seis, estrofes de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas, os três restantes – o segundo, o quinto e o oitavo – têm três:

Querendo mudar agora
Sem demora
Noutra obra eu pego e vou!
O que eu quero é que tu digas
Que em cantigas
Eu sou formado doutor!
Vamos mudar de toada,
Camarada,
Quero ver se és cantador...


A ligeira, quadra bipartida, de versos de sete sílabas, com a rima obrigatória em “á” e precedida do refrão “Ai, d-a-dá”:

Ai d-a-dá
Colega, pinique a polda
Se quiser me acompanhar
Ai!
Essa minha bola velha
Quanto eu mais puxo mais dá...


O quadrão:

Meu povo preste atenção
Agora é que eu vou cantar
Eu vou te dar um ensino...
Eu é que vou te aquietar...

O galope que, segundo o autor, é uma sextilha de decassílabos. Mas deve ter havido algum engano ou erro gráfico, pois sabe-se que o galope é sempre em versos de onze sílabas, como ocorre com o “galope à beira-mar”, cujos versos são de onze sílabas, só que em estrofes de dez versos. Aliás, o exemplo oferecido por Leonardo Mota é em onze sílabas, pelo menos nas quatro primeiras linhas:

Josué, o que é isso? Amansa, mano,
Que eu creio numa coisa é quando vejo...
Uma onça para mim é uma pulga,
Um tubarão pra mim é um percevejo,
E um tiro de rifle é caçoada,
É merenda de vim, de doce e queijo...

Veja mais em: